sábado, 14 de outubro de 2017

Expedito Silva Soares - Um Transeunte



Expedito poderia ser apenas mais um aposentado no Brasil. E ele é. Mas se torna foco da lente de Eryk Rocha. E nós seguimos o dia a dia de sua vida, enquanto ele segue o dia a dia de outras vidas.


Não faz muita coisa, não tem uma vida movimentada. Acorda, se distrai vendo o andamento de uma obra de sua janela. Vai no centro de vez em quando. Come parcamente. Recebe seu benefício social. É solitário.


De sua família sabemos apenas que não conhece o pai, que sua mãe morreu há alguns anos, que tem uma sobrinha. Mas o irmão não aparece jamais.


Não tem amigos. Não conversa com as pessoas nos bares, não tem lugares de costume. Toma uma cerveja num bar qualquer, enquanto brinca com jogos eletrônicos. Um dia na volta pra casa descobre um bar com música ao vivo e resolve parar. Ele observa as interações entre as pessoas. Alguém que faz aniversário. E o bar em uníssono canta. Ele tinha acabado de fazer aniversário. Sua sobrinha lhe trouxe um bolo pequeno, cantou parabéns, deu um livro de presente e se foi apressada, alguns minutos depois

Expedito é solitário. E sua solidão nos remete ao nosso próprio futuro. Há um medo que percorre a todos, o de ficar sozinho. Sem família, sem amigos. Há aqueles que não pensam em casar, ter filhos, não vêem problemas nesse tipo de solidão. Mas sempre pensam que pelo menos terão os amigos. Mas e se não os tiver? E se de repente se vê, velho, sem ninguém por perto, sem conseguir se conectar com ninguém? As pessoas estão ali, ao seu redor. Mas nenhuma palavra ousa sair de sua boca na tentativa de se comunicar com elas. Medo? Afinal sou apenas um velho. Tentar falar pode ser pior. A dor da rejeição. Ou simplesmente não existe nada que nos seja semelhante. Essas pessoas estão aqui, ao alcance de meu toque. Mas o que nos une? O que posso oferecer e o que elas podem me oferecer? Sentimo-nos isolados em meio à multidão. E no final só nos resta a ilusão.

Transeunte - 2010

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